Pular para o conteúdo principal

v. 3 n. 2 (2025)


No presente número, a reinvenção é a força motriz que impulsiona as práticas artísticas e acadêmicas a reconfigurar corpos, espaços, memórias, histórias e relações. Criar algo novo a partir do que já existe, transformando profundamente a si mesmo, uma ideia ou um processo, torna-se um gesto político e estético de re(exi)sistência. Reinventar arte é romper com o estabelecido e abrir caminhos para outras formas de imaginar e habitar o mundo. É preciso reelaborar para construir, pois, assim como escreveu Cecília Meireles (1983), “a vida só é possível reinventada”. 

É por esta estrada que inauguramos a edição com o texto de Nathany Clemente Pires, Marcela Santos Marcelino, Rian do Nascimento Brito e Paulo de Faria Cardoso, que reformula a produção coletiva e a interatividade através da instalação SangrArte. Ao transformar o espectador em participante ativo, o projeto desloca a lógica tradicional da contemplação e questiona os valores imputados à criação artística, ao mercado e à própria concepção de autoria. 

Em seguida, o artigo de Diego Victor Rezende Rocha propõe novas formas de relacionar arte, espaço público e comunidade ao integrar ensino, pesquisa e extensão em práticas coletivas, ultrapassando as fronteiras do ateliê e se inserindo na vida cotidiana. Inspiradas na Escultura Social de Joseph Beuys, ações como Park(ing) Day, 7000 Cerrados e Corpo-museu exploram modos de ocupar o urbano, de cuidar do ambiente e de experimentar a arte como lugar de convivência e partilha. 

Em diálogo com o espaço público, o projeto de Aurélio Fontoura Borim amplia a discussão sobre a presença da arte na cidade, abordando sua capacidade de transformar o olhar e reativar lugares esquecidos. A proposta convida à observação de áreas urbanas abandonadas e a sua reconfiguração a partir da intervenção. 

O artigo de João Vitor dos Santos Buson apresenta uma reflexão sobre o encontro entre tradição e tecnologia na prática da gravura contemporânea. Inspirado no texto “Gravura: Novas e Velhas Tecnologias” dos pesquisadores-artistas Paul Laidler e Paul Coldwell, o estudo investiga como softwares de desenho digital e máquinas de gravação a laser podem reinventar a criação visual.

Expandindo as possibilidades da produção artística, o ensaio textual de Tiago Ferreira Reis repensa a abordagem às obras não-ocidentais ao questionar a tradução cultural filtrada pelo etnocentrismo ocidental. Partindo de teóricos como Ernst Gombrich, Els Lagrou e Clifford Geertz, o texto revisa como objetos ritualísticos perdem seus significados ao serem museificados, transformados em fetiches coloniais por colecionadores. Assim, o autor propõe uma visão inclusiva que resgata essas produções em seus próprios termos, desmontando hierarquias e reconfigurando o diálogo global entre artes e culturas. 

Já o ensaio de Jéssica dos Santos Pereira resgata o passado cafeeiro da família Pereira, nas lavouras paulistas de Tupã, cidade marcada por raízes indígenas e coloniais. Partindo das memórias da avó, vivências pessoais e arquivos, a autora produz uma série de xilogravuras que retratam as etapas da produção do café, da planta à xícara, dando voz aos trabalhadores negros esquecidos pela história oficial, um gesto de reelaboração da memória como resistência. 

Por falar em corpos reinventados, a fotoperformance de Rio Santiago Alves Amaral abre a seção de ensaios visuais com uma pesquisa sobre fotografia como arquivo vivo da transição de gênero. Através de autorretratos, o trabalho reflete o corpo em transformação como testemunho de tempo, memória e performatividade, explorando a potência dos corpos dissidentes. Em diálogo com Vilém Flusser e Paul Preciado, o autor afirma a fotografia como autoinscrição estética e política de existência. 

A seguir, a fotoperformance de Hanelle Machado Tavares de Camargo apresenta as violências sutis das relações conjugais sob papéis de gênero rígidos. O Homem, bem-sucedido e guiado por valores bíblicos, contrasta com a Esposa fragilizada, que sacrifica carreira e bem-estar para servir ao marido, engolindo pedras em um jantar onde só lhe restam espinhos. Detalhes como avental, mesa corroída e taças transformam o cotidiano em denúncia visual da desigualdade e do desgaste emocional. 

Ainda sob violências invisíveis, o ensaio visual de Paulo Roberto de Oliveira e Guilherme Mininel da Silva repensa a crítica ao neoliberalismo tardio a partir da perspectiva não-humana, conectando sonhos empreendedores nocivos à exploração da natureza. O poema ilustrado escuro e contrastante evoca o limiar ambivalente entre sonho e pesadelo. 

A produção audiovisual de Aurélio Fontoura Borim, vinculada ao artigo anteriormente mencionado, ressignifica espaços abandonados da cidade ao trazer o sol para o chão por meio de pinturas em solo, esporte e dança. Esse registro visual instiga reflexões sobre o direito e dever do cidadão de ocupar o urbano, convertendo intervenções em um tecido vivo e orgânico da metrópole. Assim, o trabalho consolida a arte como gesto de apropriação e vitalização do comum. 

O último trabalho desta seção, de Maria Eduarda Archanjo, reinventa a relação com o não-humano através de aquarelas com recorte aberto de um caderno de artista sem pretensão de fechamento. As imagens florescem de observações poéticas captando movimento, leveza e transitoriedade. O gesto escuta a matéria e suas associações livres, partindo do natural para criar florações imaginárias que reconfiguram o entre ver e sentir. 

Adentrando os caminhos das narrativas, Gustavo Alves Prado de Vasconcelos redescobre os laços afetivos através de uma história em quadrinhos sobre dependência emocional. A fada triste rejeita as metamorfoses animais do amigo, que busca alegrá-la em vão, revelando as fragilidades das relações humanas. 

Na sequência, o livro ilustrado de Rafaela Mamede de Oliveira reinterpreta “A Metamorfose” de Franz Kafka através da linha azul que se desprende do novelo, enfrentando silêncio, solidão e indiferença em busca de si mesma. A narrativa visual reflete a fragilidade das relações e o abandono dos que deixam de “produzir” no mundo capitalista, propondo um percurso sensível sobre tempo, pertencimento e afeto. 

Por fim, o conto de Clara Lima acompanha a rotina melancólica de Maria, menina de 9 anos que vive com a família numa casa humilde, movendo incessantemente caixas que simbolizam sua pobreza e exaustão. Seu único refúgio é um pedaço de quintal onde fantasia outras vidas, até ouvir batidas misteriosas de madeira, reveladas pela mãe como dor ancestral dissipada nela. Na história, Maria transforma o som ameaçador em elo com suas antepassadas, aceitando-se como herdeira de suas histórias silenciadas. 

Nesta edição também teremos um dossiê especial que reúne artigos desenvolvidos durante a disciplina de Metodologia do Ensino em Arte, ministrada pela profa. Dra. Elsieni Coelho. 

E por último, a entrevista com Darli de Oliveira, artista, egressa e ex-professora do curso de Artes Visuais da Universidade Federal de Uberlândia, finaliza nossa publicação com reflexões importantes sobre docência, trajetória e muita arte. 

Que cada página provoque escuta, diálogo e reinvenção, pois só assim a vida é possível. 

Hanelle Machado Tavares de Camargo, editora-chefe



                                                            (Revista completa)

Edições mais lidas

v. 1 n. 2 (2023)

Nesta continuidade da revista tivemos o prazer de receber e realizar uma curadoria de artigos e propostas visuais de apenas artistas e pesquisadoras mulheres de nosso curso. A maioria por sua vez foi realizada na disciplina de Artes e feminismos, deste modo, convidamos a Profª. Clarissa Borges para realizar o texto de apresentação da revista. Portanto, na segunda unidade prestigiamos nós, as mulheres artistas, que ocupamos o espaço sobre a arte por meio de nossa forma de pensar, ver e pintar o mundo, sem nunca desistir de questionar e lutar pelo que acreditamos.  Rebecca Emília de Andrade Mioto, editora chefe. (Revista completa)

v. 3 n. 1 (2025)

Nesta edição, a hibridização entre texto e imagem se faz presente. Seja nos ensaios que articulam elementos visuais e poemas, seja nas análises de obras que unem escrita e experimentações gráficas, essa confluência amplia novas formas de criar, pensar e produzir conhecimentos e saberes, pois “Produzir arte hoje é operar com vetores de um campo ampliado. Um campo que se abre ao entrecruzamento das diversas áreas do conhecimento, num panorama transdisciplinar, sem prejuízo de sua autonomia e especificidade enquanto prática da visualidade”. Assim, abrimos a revista com o artigo de Clara Lima e Micaela Cavalcante, que nos transporta para a aula de Artes reinventada pela afetividade. As experiências relatadas como oficineiras mostram que a presença sensível do/a educador/a pode romper a rigidez das práticas tradicionais, criando espaços de aprendizagem mais humanizados e significativos, onde vínculos e trocas se sobrepõem à mera transmissão de conteúdos. Na sequência, Isabel Cristina Baú Or...

v. 2 n. 2 (2024)

Nesta edição da Revista 1i, apresentamos uma novidade: a adição da categoria narrativas como possibilidade de submissão. Entre as produções aceitas nessa nova categoria estão histórias em quadrinhos, contos, crônicas, poesia e prosa. Acerca das publicações presentes, reunimos temáticas e linguagens artísticas múltiplas, explorando diferentes níveis de profundidade conforme as preferências de seus autores. Esse número conta com 7 artigos, 7 ensaios visuais, 2 narrativas e 1 entrevista com a ex-aluna Maria Mars.  O artigo inicial, escrito por Assíria Leite Coelho e Bruno Póvoa Rodrigues, explora as obras de Umberto Eco, Obra Aberta e A Definição da Arte , destacando conceitos como a interpretação unívoca de Benedetto Croce e a formatividade de Luigi Pareyson. Eco propõe uma visão dinâmica e pluralista da arte, onde o significado evolui com o observador e os contextos sociais, culturais e históricos. Essa perspectiva desafia visões tradicionais, afirmando que o valor da arte reside e...