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v. 4 n. 1 (2026)




Nesta edição, o afeto aparece como uma experiência que nos transforma. Somos transformados por acontecimentos da vida, como migrações, estruturas sociais, relações familiares e vivências pessoais. Esses encontros podem nos fortalecer ou enfraquecer, nos trazer alegria ou tristeza, nos levar à resistência ou ao apagamento. Produzir arte e fazer pesquisa são modos de lidar com essas afeições e de construir caminhos próprios. Para existir, é preciso deixar-se tocar pelo que vem de fora.

É por este trajeto que inauguramos a edição com o artigo A construção do sensível: fenomenologia da série Sonhos Yanomami, de Claudia Andujar, de Laura Clemente de Sousa Reis, que disserta sobre a produção fotográfica de Claudia a partir de uma perspectiva fenomenológica e relacional da imagem. O trabalho desloca a lógica tradicional do registro objetificante e questiona os valores da representação, do visível ao invisível. Laura nos convida a diferentes modos de sentido e nos faz pensar o sonho como forma de saber.

Em diálogo com o sensível, o artigo Lençóis da memória: uma síntese sobre processos, vivências e desdobramentos, de Gustavo Willian Zenatti e Leandro Morais Santos, integra memórias pessoais ao fazer artístico utilizando a técnica de transferência de imagens com óleo de banana. A pesquisa descreve o percurso prático dos autores e os desdobramentos pedagógicos da oficina Lençóis da Memória, sob a ótica da Abordagem Triangular e dos preceitos de Paulo Freire.

Tratando-se de formação e encontro, o artigo de Jéssica dos Santos Pereira, A importância da monitoria na formação do artista professor, discute como a monitoria preenche a lacuna formativa do currículo de graduação e se constitui como uma espécie de estágio da prática docente na universidade. Esse espaço é indispensável para a experimentação pedagógica e para a construção da identidade do artista-professor. Para Jéssica, a monitoria possibilita outras maneiras de ensinar e aprender, para além dos modelos tradicionais de docência comuns nas experiências vividas durante a graduação de licenciatura.

Em seguida, o ensaio textual Até que você sinta saudade de algo: um ensaio sobre natureza, memória e pertencimento, de Juliana Alves Santos, repensa a experiência de migração e o desejo de pertencer em fotografias 3x4 capturadas ao longo de três meses. O resultado é dez fotos, cinco lugares: a faculdade, a casa, o pensionato e dois parques, todos parte das muitas migrações que a autora vive. O ensaio documenta a experiência e a poesia da obra, refletindo sobre pertencimento e como somos afetados pelas mudanças geográficas e culturais.

Já o ensaio textual de Maria Fernanda Barbiéri Machado, intitulado Uzumaki: a espiral do horror, o grotesco e Wolfgang Kayser, analisa a obra Uzumaki (1998–1999), de Junji Ito, sob a ótica da categoria estética do "Grotesco", conforme formulada por Wolfgang Kayser. O trabalho dialoga o horror visual e psicológico de Ito com o grotesco histórico de Primo Levi sobre o Holocausto, identificando a desumanização como ponto de convergência entre o terror ficcional e a realidade histórica.

O trabalho Aguardo a minha vez, de Mariane Aparecida Silva, abre a seção de ensaios visuais com a investigação poética sobre a morte, a partir de cemitérios como espaços de serenidade, suspensão do tempo e acolhimento. O cemitério é entendido como um arquivo silencioso, onde memória e apagamento coexistem, e a morte é um lembrete da finitude da existência.

Conectando memória a lugares, o ensaio visual Fotodiário: da minha casa, do meu corpo como um todo, de Tatiana Fernandes da Silva, apresenta a relação entre corpo, casa e memória em um fotodiário artesanal do cotidiano, com registros de espaços da casa e partes do corpo da artista. Tatiana propõe olhar a casa-corpo no espaço-tempo em que habitamos, afetados por atravessamentos familiares e existenciais que marcam física e mentalmente.

Da memória individual para a coletiva, o ensaio visual de Miguel Augusto Alves dos Santos, Homem negro em ascensão, amplia a discussão sobre o processo de "tornar-se negro" e suas afeições, compreendendo o enegrecimento como resgate de identidade. O trabalho busca mostrar a necessidade de reconhecer que a subjetividade negra foi historicamente silenciada por processos de embranquecimento impostos pela estrutura social.

Por falar em memória coletiva, o ensaio visual Retomada, de Cíntia Garcia Cardoso, busca reintegração humano-natureza em contraposição à dicotomia que fundamenta a manipulação do planeta. O livro de artista apresenta linoleogravuras em tecido de algodão com intervenções em bordado e trata de interferências humanas, como construções, ocupação urbana e desmatamento.

A narrativa O lucro não bebe água, de Frankie Oliveira da Silva Cruz e Gabriela Garcia Bühler, finaliza a seção de obras com uma história em que a Fazenda Esperança é palco de uma guerra silenciosa entre natureza e progresso no Triângulo Mineiro. Dona Siricotico, uma coruja-buraqueira vaidosa e neurótica, reina sobre um murundu que o Coronel Pimenta-no-Zóio, homem de alma seca e olhos miúdos, pretende nivelar com seu trator para plantar soja. O texto convoca temas como reconciliação e aprendizado.

Nesta edição há também um dossiê especial com artigos desenvolvidos na disciplina de Estágio III do curso de Artes Visuais da UFU, ministrada pelo prof. Dr. Geovanni Lima da Silva.

Por último, as entrevistas com Afonso Lana e Valéria Ochoa, ex-professores de artes da UFU, finalizam esta publicação com reflexões sobre docência, resistência e memória. Os ex-professores assumem compromisso com a formação em artes e comentam sobre os efeitos de acontecimentos históricos e políticas na criação artística.

Assim como AJULIACOSTA afirma em seus versos "Eu sou artista, eu sou arte, eu sou tudo. Sou resultado de algo, participante do mundo. Por isso, não me iludo, não me isolo, participo", nós somos resultado dos encontros e despedidas, das idas e vindas, das memórias dos que nos antecederam e dos sonhos dos que nos sucederão. Permita-se afetar pelas linhas escritas nesta edição e deixe brotar trilhas novas.

Hanelle Machado Tavares de Camargo, editora-chefe



                                                            (Revista completa)

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